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Memórias do Lugar

Férias divinais em Santa Cruz

Vivi cerca de uma ano e quatro meses num lugarejo denominado Praia de Santa Cruz. De início, previa uma viagem de meio ano apenas… No entanto, quando melhor relecti, veio-me à mente a ideia de que eu logo atingiria os sessenta anos de idade e que não deveria haver mal algum se aproveitasse o ensejo para pedir a Deus umas férias de um ano… Assim conjecturando e, após uma longa conversa com a minha própria consciência, passei a sentir no meu íntimo uma sorte de excitação indescritível, que me levou a permanecer ali, sem qualquer hesitação.
Os quatro meses, que excederam ao pedido original, ficaram de “brinde” e só retornei a ao lar na véspera do meu aniversário de sessenta anos.
Visto que se tratava de férias especialmente concedidas por Deus, não havia dúvidas de que o melhor seria desfrutá-las em um lugar desprovido de quaisquer distúrbios, onde se permitisse uma interacção profunda do meu ser com o Céu e a Terra.
Para isso, a Praia de Santa Cruz era simplesmente perfeita, sem igual.
E nessa interacção havia o acompanhamento melódico e ininterrupto das ondas do mar.
Por tudo isso, um casebre praticamente em ruínas transformou-se de imediato em meu palácio. Dali, no percurso até ao penhasco, seguia a primeira sala, a da reunião, vinha a segunda e a terceira, e culminava em um cabo, o meu trono real, com vista panorâmica do Atlântico que se expandia para as três direcções.
Os raios solares reluziam incansavelmente no alto da minha fronte e, aos meus pés havia sempre o mar, a desenhar as suas estampas onduladas.
Quando em suor, descia ao mar através do penhasco e nadava.
Dentre os quatrocentos dias de férias, provavelmente duzentos teria nadado por entre as ondas das costas do Porto das Vacas.
Logo, um cão passou a acompanhar-me.
Um cão não passava de um intruso, mas não poderia zangar-me com um ser que viera abordar-me espontaneamente […] 
O que há de realmente esplêndido lá é o Poente.
Sempre que sentia a sua proximidade, deixava de lado o que quer que estivesse a fazer, corria ao penhasco mais próximo e punha-me a gritar, a exemplo do ilustre Kiyomori: 
“Devolva-mo, devolva-mo!” 
Então, sentia a vibração do Sol ardente no meu âmago e via-o desaparecer entre as ondas.
O reluzir das nuvens logo após era de uma beleza inesquecível.

 

Um sonho de noite de Verão

O número de habitantes, que permanecem em Santa Cruz durante o ano todo, provavelmente não passa de duzentos. Por isso, todos se conhecem e jamais precisei sequer trancar a minha porta à chave.
No entanto durante o verão, esta aldeia conta com mais de vinte mil habitantes. Todas as casas de aluguer ficam completamente cheias. Cinco ou seis hotéis, bares, restaurantes, sala de bailes, cinema e, até uma casa de fado abrem as portas.
Mas, o que me surpreendeu mais foi o grande empreendimento de verão, montado por Joaquim, no seu bar. O bar do Joaquim tem um nome bastante imponente “Imperial”, mas é uma casa comum tal como se vê em qualquer lugar. 
O depósito de varas de pesca no seu interior foi desocupado e, ao ver uma bicha seguir em flecha no papel colado na parede, eu também entrei com timidez. No interior, encontrei uma escada recém construída, que conduzia ao secadouro na parte interior transformando a danceteria “Go Go”, toda decorada com pequenas bandeiras de todas as nações e até uma bola espelhada de três cores a rodopiar. Fiquei apenas boquiaberto.
No alto de um patamar, uma banda vinda não sei de onde tocava músicas com grande ânimo. O espaço está como canastra de sardinhas.
Bem no meio, a Maria Calada de dezassete anos vestida de preto, à traje de baile, estendeu-me o braço com um sorriso, como prima-dona. Recusei o convite dizendo, “Não sei dançar, não sei” e fugi arrastando-me para um balcão instalado num dos cantos.
Mas, um sonho de noite de verão é efémero, e não passa de um mês e meio de duração. Com o início de Setembro a aldeia não tarda a voltar a uma vila fantasma contando menos de duzentos habitantes.

 

 


Belo Sol Poente
Ah! Pudess’ eu ir buscar-te
Lá, ao fim do mar!

 

Kazuo Dan, Santa Cruz, 1971.

Kazuo Dan (1912-1976)

Kazuo Dan, é um dos mais populares escritores japoneses do período do pós-guerra, nasceu na província de Yamanashi, no dia 3 de Fevereiro de 1912.
Desde criança, Kazuo Dan manifesta interesse pela leitura e escrita.
Aos dezasseis anos, no Liceu de Fukuoka, Dan inicia as suas actividades literárias publicando poemas, romances e peças de teatro numa revista da escola, tendo sido premiado por uma das suas novelas, num concurso escolar.
Frequentou a Universidade de Tokyo, onde se formou em economia, paralelamente passou os anos da universidade a ler romances e a escrever nos círculos literários de Tokyo. A obra inédita “O carácter desta família”, que publicou na revista Shinjin, recebeu críticas elogiosas de um jornal nacional, facto que o lançou na carreira de escritor. Depois de concluídos os estudos académicos, entrega-se inteiramente à escrita, foi correspondente de guerra de um jornal, durante a guerra do Pacífico, na China. Terminada a guerra, regressa ao Japão, casa-se com Yosoko.
Em 1951 ganha o prestigioso prémio literário Naoki, e no mesmo ano parte para o Antárctico numa frota baleeira.
Sem nunca deixar de publicar, viaja pelo Japão, visita a Europa e os Estados Unidos, a China, a Rússia, Austrália, Nova Zelândia.
Em 1970, aos cinquenta e oito anos, visita Portugal, passando a viver na Praia de Santa Cruz, onde ficou durante mais de um ano.
Morreu a 2 de Janeiro de 1976, no Japão. Já na fase terminal da doença, ditou durante dez dias o seu último romance “O Homem das Paixões”.

 

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